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    [Brasil S.A.]

    Um pouco da História de

    Brasil S.A.

    Uma entrevista publicada no Programa Original da Peça

    Você, que veio até aqui, deve estar querendo saber: o que deu na cabeça do Antônio Ermírio para levá-lo a escrever uma peça de teatro?

    Antônio Ermírio:

    Esta pergunta também me intriga. Surpreendi-me com a força que nasceu dentro de mim para expressar, na forma de teatro, os meus sentimentos mais profundos. Afinal, sou engenheiro. Um homem de empresa. Dedicado aos investimentos, à industria de base, aos complexos problemas de engenharia, a tudo o que tenderia a tornar as pessoas frias e indiferentes. Não foi o meu caso.

    Desde jovem, nutri muito gosto pela literatura e pela escrita. O saudoso José Rios Castelões, professor de português dos tempos do colégio, teve uma influência enorme em minha vida. Li tudo o que ele sugeriu e muito mais coisas que brotaram das nossas gostosas conversas sobre Machado de Assis, Eça de Queiroz, José de Alencar e tantos outros. Ele estava convencido de que minha vocação era o Direito. Cheguei a cogitar nisso.

    Mas o destino quis diferente. Findo o colegial, segui direto para a Escola de Engenharia do Colorado, nos Estados Unidos. Quando voltei, vi-me imediatamente integrado nas fábricas do Grupo Votorantim. Daí para frente, não sobrou tempo para alimentar a idéia da carreira então sonhada.

    O tempo para a literatura ficou cada vez mais escasso. O para escrita, menor ainda - exceto o da escrita técnica.

    Depois de muitos anos, comecei a escrever para a Folha de S. Paulo. Os primeiros artigos consumiram dias. Tudo tomava muito tempo: a pesquisa, os rascunhos, o acerto de frases - até se chegar a forma final. Mas, logo de início, percebi que aquilo era uma brasa encoberta. Repentinamente, passei a desfrutar o prazer de jogar com a razão e com as palavras, lembrando-me novamente do velho Castelões.

    A gestação de Brasil S.A. começou no final de 1986. Eu havia saído de uma campanha política como candidato a governador de São Paulo. As campanhas políticas têm muito de teatro. Aprendi que o sucesso eleitoral depende basicamente da manipulação competente das emoções dos eleitores. O script precisa ser bom; mas a interpretação é decisiva.

    Os primeiros diálogos de Brasil S.A. saíram dois anos depois. Vi, de início, que seria um parto doloroso. Lento. Sinuoso. O tema central não mudou. O Lucas nasceu e cresceu como um empresário batalhador, e a Rosa, sua mulher, também se firmou como a esposa amorosa, parceira, lutadora.

    O que mudou muito ao longo dessa demorada travessia foi a trama em que Lucas se meteu. Com uma filha ecologista (Inês), uma nora "dinheirista" (Monique), um amigo calculista (Léo) e um profissional chantagista (Tavares), a vida de Lucas passou a ser ameaçada por todos os lados, dentro e fora do lar. Dario, seu filho, como juiz de Direito, mantém a temperança nas horas de crise.

    A conjugação dos conflitos profissionais com os conflitos familiares me pareceu retratar o que há de mais comum na vida de quem tenta produzir seriamente neste País.

    Tive a sorte de contar com o superior apoio profissional de Marcos Caruso. Um artista reconhecidamente capaz. E, sobretudo, amigo.

    [Elenco da peça: Brasil S.A.]

    Da mesma forma, fui contemplado com um elenco de atores e atrizes grandiosos, como é o caso de Irene Ravache, Rogério Fróes, Mayara Magri, Suzy Rêgo, Luís Guilherme, Jandir Ferrari, Rogério Márcico e Eugênia de Domênico. Trata-se de uma plêiade de artistas consagrados e que ao longo do tempo, muito contribuíram para a "afirmação" do texto.

    O resultado do trabalho está aí. Espero que Brasil S.A. proporcione a você alguns momentos de boa emoção e um humor sadio, vivido pela Dalva.

    Não me intitulo escritor. Muito menos dramaturgo. Ficarei contente de Brasil S.A. conseguir transmitir aos nossos jovens a crença que tenho no trabalho e na justiça e muito satisfeito se o espetáculo reafirmar perante todos a minha infinita fé neste grande Brasil. Daqui para frente a crítica é sua.

    Antônio Ermírio de Moraes

    Abril de 1996