• ARTIGOS - Saúde

    Publicado na Folha de São Paulo, 30/04/00

    Fumo e álcool: uma dupla do barulho!
    Antônio Ermírio de Moraes

    A imprensa dos Estados Unidos divulga, quase diariamente, as vultosas indenizações que muitos fumantes reclamam em conseqüência de doenças adquiridas pelo uso do cigarro. Em contraste, é surpreendente ver como são raras as reclamações contra os fabricantes de bebidas alcóolicas que, afinal, causam problemas tão graves quanto os cigarros. Nos Estados Unidos, o fumo mata 400 mil pessoas por ano e o álcool, 250 mil. São 650 mil vidas ceifadas precocemente, que deixaram de ser produtivas e que causaram grandes despesas antes de morrer.

    O consumo de bebidas alcoólicas no mundo é enorme. A Alemanha é campeã. O consumo per capita ultrapassa a casa de cem litros por ano. A Austrália, a República Checa, a Áustria, Dinamarca, Holanda e Estados Unidos vêem logo em seguida, ficando entre 75 e 95 litros per capita.

    O Brasil não está mal no ranking mundial mas, dado o baixo nível de renda da nossa população, é preocupante saber que aqui se consome, anualmente, 8,15 bilhões de litros de cerveja e 1,5 bilhões de litros de aguardente, o que nos dá uma média de 60 litros per capita/ano em nosso país.

    As pesquisas comprovam que o fumo e o álcool são geradores de grandes prejuízos para as pessoas e para a sociedade. Além das doenças que causam, os dois hábitos demandam recursos colossais dos sistema de saúde. Ambos provocam quedas de produtividade no trabalho e, portanto, perdas desnecessárias. O álcool é uma das principais causas de acidentes de trânsito e responsável por enormes despesas de reconstrução e reabilitação de acidentados.

    Muitos economistas advogam uma fortíssima tributação desses bens, não só para inibi-los como, sobretudo, para fazer os seus consumidores participarem de forma mais direta do financiamento dos serviços de saúde que a sociedade é forçada a oferecer devido aos seus vícios.

    Sabe-se que, cigarro e álcool andam juntos. É muito grande o número de pessoas que fumam e bebem de forma contumaz. Uma pesquisa recente demonstrou que, ao se elevar o preço do álcool há uma redução no consumo de bebidas e de cigarros. Mas, ao se elevar o preço do cigarro, há uma elevação do consumo do álcool (Sandra L. Decker e Amy Ellen Scwartz, citado na Business Week, 20/03/00).

    A contradição intrigou as pesquisadoras. Elas verificaram, porém, que ao elevar o preço das bebidas, as pessoas passam a frequentar menos os bares, onde o fumo é intenso. Constataram ainda que, ao elevar o preço do cigarro, os fumantes que desistem do vício procuram uma alternativa aparentemente de menor efeito colateral o álcool.

    Com todas as reservas que se pode fazer a essas conclusões, não há dúvida que a sociedade moderna precisa encontrar alguma maneira de reduzir o consumo de drogas, como o fumo e o álcool, que são responsáveis por tanto sofrimento humano e tantos prejuízos sociais.

    No Brasil, as despesas no campo da saúde para tratar de doenças causadas pelo fumo e pelo álcool são crescentes. Por isso, ao lado da tributação, campanhas educativas e medidas efetivas de desestímulo ao uso de fumo e álcool são fundamentais para se manter a vida e as finanças públicas mais saudáveis.

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