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Publicado na Folha de São Paulo,19/09/93
Um exemplo de privatização
Se o governo decidisse privatizar todo o sistema ferroviário do Brasil, será que alguém se interessaria em comprar os nossos 30 mil quilômetros de estradas de ferro? Duvido. Nem mesmo os bancos. Pois bem. Um trabalho recentemente publicado pelo Banco Mundial (Koichiro Fukui, "Japanese National Railways Privatization Study") informa que o Japão, ao longo dos últimos cinco anos, privatizou 80% da sua rede de trens, inclusive o "trem-bala". Foram 27 mil quilômetros de estradas que transportavam, diariamente, cerca de 20 milhões de passageiros e 200 mil toneladas de carga. É, realmente, um volume impressionante. Num só dia, Os trens do Japão trafegam quase dois milhões de quilômetros - o que daria para circular a terra 44 vezes! Trata-se de um sistema amplo, complexo e importante para a população e economia do Japão. Coisa que pouca gente acreditava que pudesse ser privatizada. Essa rede, quando era do Estado, estava dando um prejuízo de US$ 18 bilhões por ano. Cerca de 85% das receitas iam para pagar pessoal. Hoje, a rede gasta apenas 40% nesse item e, desde 1987, passou a dar lucro. Quando estatal, a rede tinha cerca de 400 mil funcionários. Depois, caiu para 280 mil, sendo que 90 mil continuam ociosos. Dá para fazer tudo com 200 mil funcionários. Dois aspectos importantes me chamaram a atenção nesse caso. Primeiro, está claro que mesmo um setor tão complicado como o ferroviário é passível de privatização. Segundo, que a privatização só dá certo quando é bem feita. De fato, os números indicam que o volume de transporte aumentou, a qualidade melhorou, a tecnologia se modernizou, a rentabilidade se elevou, os custos se reduziram, a produtividade aumentou e o endividamento diminuiu depois da privatização. Mas o negócio foi limpo. Os novos donos compraram a rede com seu dinheiro, assumiram as dívidas da antiga rede e contraíram empréstimos a juros de mercado. Bem diferente tem sido a situação brasileira. Já temos casos de privatização feita com dinheiro público injetado nas fundações e fundos das empresas estatais. Mais recentemente, surgiu o episódio de um banco público que, segundo consta, emprestou recursos públicos a juros subsidiados, para um comprador privado adquirir uma empresa pública. São jogadas desse tipo que desmoralizam o processo de privatização e dão argumentos para os que são contra ela. Ainda estamos no começo. Tem muita empresa a privatizar. Esperemos que a prática nos conduza para procedimentos mais claros, seguindo uma regra simples: que os pretendentes às empresas públicas entrem com seu próprio dinheiro. |