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Publicado na Folha de São Paulo,16/05/99
Outra guerrinha...
É um xingamento inacreditável. Uma guerra de desaforos. E também de sanções. Os europeus acabam de restringir a compra de aviões americanos, alegando excesso de ruído. O revide veio na hora. Os americanos denunciaram na Organização Mundial do Comércio (OMC) que os europeus subsidiam o Airbus e impedem rotular a champanhe da Califórnia como champanhe – o que é ilegal. Essa guerra não pára aí. Os europeus bloquearam a entrada das bananas americanas, invocando riscos à saúde. Os americanos, inconformados, com apoio da OMC vão cortar US$ 191 milhões de importações européias. Agora, uma nova guerra é da carne. Os europeus não querem os bifes americanos por causa de hormônios cancerígenos. Os americanos conseguiram da OMC um desmentido desse risco. E, por cima, obtiveram uma autorização para cortar US$ 300 milhões de importações de alimentos da Europa. A guerra quente dos anos 40 foi substituída pela guerra fria nos anos 60 e pela guerra da comida nos anos 90. Para quem vê de longe, parece infantil ver países guerreando por bananas e bifes. Mas, trata-se de guerra séria para o Brasil. A Europa e os Estados Unidos cultivam a filosofia de mercados livres para seus exportadores e mercados protegidos para os seus importadores. Essa filosofia explica as restrições impostas ao aço brasileiro, ao nosso açúcar, suco de laranja e vários outros produtos que são pesadamente gravados na Europa e nos Estados Unidos. Precisamos tomar cuidado com a pregação de livre comércio que vem dos países mais avançados. O desencontro entre o discurso e a prática só é superado pela malícia e sofisticação das nações ricas na utilização das regras da OMC. A guerra no comércio internacional está enveredando por terrenos perigosos. Ora são os obstáculos ambientais; ora são as teses médicas; ora são as chamadas cláusulas sociais para se referir a diferentes condições de trabalho como formas de subsídio à produção. Em artigo recentemente publicado por uma economista canadense, Sylvia Ostry, da Universidade de Toronto, fica claro que "os Estados Unidos não têm nenhuma política de comércio internacional - mas, apenas, clientes" (The Economist, 08/05/99). Numa hora em que o Brasil precisa ampliar dramaticamente as suas exportações, esse espírito de protecionismo tem de ser desmascarado. Isso não se faz com incursões episódicas, mas sim através de um trabalho competente e continuado. A próxima reunião da OMC terá lugar em Seattle, estado de Washington, no final deste ano. É urgente iniciarmos um bom trabalho imediatamente, ficando para aquele evento apenas o posicionamento final, endossado por outros países, e que, no fundo tem de defender uma tese muito simples: a liberalização tem de valer para todos. |