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Publicado na Folha de São Paulo, 13/10/91
Tristeza sim, comemoração não
Sou pouco ligado a datas comemorativas exceção aos Dias das Mães e dos Pais. Mas, ontem foi o Dia da Criança. Comemorar o quê? Os jornais noticiam crimes contra menores por causa de tênis. Sim, tênis! A maioria de nossas crianças tem sua inteligência comprometida devido à desnutrição. Centenas de milhares se intoxicam com cola de sapateiro, que, evidentemente, não substitui comida mas, ao que parece, mata a fome. Essa é a nossa realidade. Comemorar o quê? Em tempo de campanha eleitoral, a criança é prioritária. Passada a eleição, o tema fica tão abandonado quanto as próprias crianças. Daí a justa descrença do povo nos políticos. Temos, sem dúvida, as mais belas leis em favor da criança. O artigo 227 da Constituição federal diz: "É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão". É possível coisa mais bela? Sim, a Constituição de São Paulo, além das crianças e adolescentes, inclui o idoso e o portador de deficiência no seu artigo,.277. Imaginação é o que não falta. Há um ano foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente, com 267 artigos, maior do que a Carta Magna. Se dependesse de lei, a criança brasileira seria a mais privilegiada do mundo. O Brasil tem até um "Ministério da Criança" e, em São Paulo, uma Secretaria do Menor. Simultaneamente, o abandono de crianças se alastra como rastilho de pólvora. Os que caminham pelo centro de São Paulo e pelos bairros outrora familiares sabem do que estou; falando. O mesmo ocorre no Rio, Belo Horizonte, Salvador e Recife. A cada, dez metros, desenrola-se o mais desolador espetáculo para um povo que deseja, algum dia, ser nação. São milhares, de crianças jogadas nas ruas, implorando, pedindo e até assaltando. Dia e noite. De segunda a segunda. Mal alimentadas. E sem contarem com uma mão amiga de parente, conhecido ou autoridade que as tire do caminho; da destruição. No último dia 7 de setembro, um sábado, saí de meu escritório para tomar um café na pequena rua Marconi. Essa, que foi a rua dos consultórios médicos, virou um triste depósito de crianças, que ali vivem como animais. É dessa forma que crescem as crianças das grandes metrópoles. A porta do cemitério da Consolação, em São Paulo, já percebi, é lugar disputado. Além de "bom ponto" para mendicância, ele dispõe de um pequeno abrigo para as noites mais frias. Nesses lugares, a cola e a bebida, misturadas com a promiscuidade e a preguiça substituem o lar, o estudo, o amor e o carinho. E assim que o Brasil trata suas crianças. Comemorar o quê? Nada! Concordo com o relatório da Unicef, de 1991 que diz: "Crianças que não recebem atenção, são crianças que se voltarão contra o mundo que as desprezou". Nosso futuro já está determinado. São essas crianças que formarão a geração de amanhã. Em lugar de comemorar, temos de esconder a negligência atrás da vergonha, parar com a retórica; e cuidar efetivamente dessa chaga social, para, daqui 20 anos, festejarmos, com motivos, o Dia da Criança. |