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Publicado na Folha de São Paulo,07/11/99
São Pedro, PPA e bens de capital
As turbulências no campo das Bolsas de Valores nos fazem pensar o que será do futuro do mundo se essa jogatina não for apoiada pelo lado real da economia. Por sua vez, os exercícios para se projetar o desenvolvimento do lado "hard" da economia estão exigindo extremo cuidado. Tomem o caso dos automóveis. O Brasil produz cerca de 2 milhões de veículos por ano. Com a chegada das novas montadoras, haverá um aumento de 800 mil unidades anuais. Não há dúvida de que essa perspectiva significa uma grande notícia em termos de geração de riqueza, renda e postos de trabalho, especialmente quando se leva em conta a geração de empregos indiretos. Mas tudo vai depender, é claro, do comportamento da demanda interna e externa. O mundo tem 520 milhões de automóveis, e a produção está em torno de 40 milhões de unidades por ano. No ano passado, a produção americana cresceu 2%, e as vendas, 1%. no Japão, a produção cresceu 6%, e as vendas caíram 7%. Em termos mundiais, há claros sinais de superprodução, e os analistas acham que isso vai continuar por vários anos (Seth Dunn, "Automobile Production Sets Record", 1998). Um dos gargalos para acomodar os automóveis é o alto custo da infra-estrutura (estradas, vias urbanas, estacionamentos, hospitais para acidentados etc.), que, nos Estados Unidos, custa a espantosa soma de US$ 300 bilhões por ano! As perspectivas de o Brasil exportar mais automóveis enfrentam, de início, a superprodução do exterior. Além do mais, o Brasil não desfruta de uma competitividade que seja capaz de enfrentar a concorrência dos estrangeiros de forma a deslocá-los dos principais mercados do mundo. Atualmente, a alta produtividade dos países da Ásia, aliada à desvalorização das moedas nacionais, está permitindo aqueles países produzir automóveis a preços de 30% a 40% mais baixos do que faziam há dois anos. Se o mercado internacional se afigura assim apertado, o que dizer do mercado interno? Os brasileiros terão renda para absorver quase 3 milhões de automóveis por ano? Há infra-estrutura para comportar esse volume de veículos? Segundo estimativas de um especialista no assunto, o Brasil levará quase dez anos para chegar ao ponto de absorver 3 milhões de carros anualmente. Já no ano 2000, antecipa-se um excedente de 30% da produção (Manfred Tuerks, Indústria automobilística: investimentos exagerados, "o Estado de S.Paulo", 31/8/98). É claro que esse quadro pode ser revertido se houver um crescimento espetacular da renda "per capita" e uma débâcle nos produtores estrangeiros. Porém essas duas hipóteses são pouco prováveis. O mais razoável, portanto, seria rever os planos de investimento nesse setor e, mais do que isso, os planos de financiamento público e os programas de incentivos fiscais que hoje amparam a implantação de novas montadoras no Brasil. Ao fazer isso, é bem provável que as autoridades governamentais venham descobrir alternativas mais urgentes para o Brasil gerar riqueza, renda e empregos, com uma infra-estrutura menos dispendiosa. |