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Publicado na Folha de São Paulo,24/10/99
Descoordenação e desnutrição
O Ministro Pedro Malan compareceu ao Congresso Nacional nesta semana para discutir com os parlamentares o que fazer para se reduzir a pobreza no Brasil. Ao citar os progressos na educação e saneamento básico, o Ministro, embora reconhecendo a gravidade do problema, mostrou que o quadro foi pior no passado. Um dado interessante, mas pouco citado, diz respeito à situação nutricional da população. Em estudo recente, a FAO reconheceu que o Brasil está entre os 37 países do mundo que conseguiram reduzir o número de pessoas desnutridas nos últimos dez anos. Aquele organismo da ONU considera, como dieta ideal, um consumo diário de 1.100 calorias para as crianças de 1 ano e de 2.600 calorias para as pessoas adultas. O Brasil, que possuía cerca de 13% da sua população vivendo abaixo desses mínimos em 1991, caiu para menos de 10% em 1999. É um indicador de progresso, sem dúvida. Mas isso não resolve uma questão intrigante. Quando se compara o consumo de certos alimentos no Brasil com a média do mundo, os dados são surpreendentes. Por exemplo, os brasileiros consomem, em média, 30 quilos de carne bovina por ano; 20 de frango; 8 de suínos; e 2 de outras carnes – num total de 60 quilos, bem acima de média do mundo, que está em torno de 36 quilos. As nossas safras têm se superado, anos após ano. Em 1998, o Brasil produziu cerca de 80 milhões de toneladas de grãos – o que significa 500 quilos por habitante, enquanto a média do mundo é apenas 300. Para 1999, espera-se uma safra de 85 milhões de toneladas. Com um pouco de esforço, em especial, de irrigação, podemos facilmente ultrapassar a casa dos 100 milhões. Quando se juntam todos esses dados, surge um justificável inconformismo com a persistência de 15 milhões de brasileiros comendo abaixo da média fixada pela FAO. O Brasil não deveria ter uma só pessoa nessa triste condição. Esse é mais um daqueles problemas que envergonham o nosso País perante o resto do mundo. Não há a menor razão dessa gente ficar desnutrida no meio de tanta fartura. O mais grave é que os "polígonos da fome" são conhecidos e localizados – tanto quanto são os polígonos da seca. Não seria o caso do governo promover uma ação coordenada para alimentar adequadamente essa parcela e, ao mesmo tempo, intensificar a agricultura irrigada para produzir mais alimentos e, com isso, expandir o emprego e a renda para que esses brasileiros se transformem em trabalhadores-consumidores? Não há dúvida. A pobreza é um problema de solução demorada. Mas não tem cabimento ver 10% do povo desnutridos em meio de uma produção que já é farta, e que pode ser mais farta com um esforço coordenado do governo e dos agentes econômicos. De todas as prioridades sociais, essa é a mais importante. |