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Publicado na Folha de São Paulo, 05/12/99
Para ser lido em 2020
A reunião de Seattle terminou, considerando a globalização como um inexorável destino da história. Para os países avançados, esse processo, não só vai continuar, como será também a "salvação da humanidade". Trata-se de uma tese sedutora, geralmente, apresentada com base em argumentos sofisticados. Os dados disponíveis mostram que a primeira parte da assertiva pode ser verdadeira – a de que a globalização é inevitável – mas a segunda é certamente falsa – a de que ela vai resolver os problemas dos seres humanos. As fusões de empresas dos últimos anos, por exemplo, que crescem á base de 28% no mundo, estão implicando em um enxugamento dramático dos quadros de pessoal. Está para ser provado, ainda, que a globalização, analisada sob o ângulo das fusões, consiga gerar empregos. Da mesma forma, a concentração da renda mundial aumenta de ano em ano. A relação entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos, em 1960 era de 30 para 1. Em 1988, passou de 60 para 1. E nos dias atuais, deve estar acima de 70 para 1. Tudo seria aceitável se essa concentração tivesse redundado na criação de novos postos de trabalho. No entanto, o mundo exibe cerca de 1,2 bilhão de pessoas no desemprego ou subemprego – ou seja 40% da população economicamente ativa. A globalização, que promete elevar o padrão de vida das pessoas, está por demonstrar esse efeito em vários campos das necessidades básicas. Na esquina do século XXI, o mundo tem ainda 1,7 milhão de pessoas vivendo sem energia elétrica. Muitos poderão argumentar que a situação seria pior não fora os ganhos de eficiência trazidos pela globalização. Mas, quem são os maiores favorecidos com esses ganhos de eficiência? Em 1970, a dívida do Terceiro Mundo era de US$ 270 bilhões – uma brutalidade. Em 1998, foi de US$ 2,2 trilhões – um escândalo! O endividamento aumentou na base de 8% anuais, enquanto que suas economias cresceram 3% ao ano, em média. Com esse nível de endividamento é difícil provar que os países mais pobres foram os maiores beneficiários dos ganhos de eficiência trazidos pela globalização. O quadro da desigualdade tende a persistir. Em 2020, 85% da população mundial estará concentrada no Terceiro Mundo e 15% no Primeiro. Ou seja, a economia prosperará onde tem menos gente e o endividamento crescerá, onde tem mais gente. Ninguém pode ser contra a modernização tecnológica e a elevação de eficiência dos processos produtivos. Mas isso está trazendo graves problemas de segunda geração. Será o legado que estaremos passando aos nossos filhos e netos. Oxalá a redução do crescimento demográfico e uma rápida melhoria na educação venham a prover mais proteção para os atuais indefesos. É um assunto para ler hoje, meditar amanhã e voltar a ler daqui há vinte anos. Quem viver verá. |