• ARTIGOS - Economia Internacional

    Publicado na Folha de São Paulo, 04/07/93

    O Brasil e o Nafta
    Antônio Ermírio de Moraes

    O mundo dos negócios internacionais está em pé de guerra. Não se trata de um conflito armado mas de uma guerra comercial. A agressividade no comércio exterior está transformando os negócios em verdadeiras atividades bélicas.

    Nesse clima, os países perdem e ganham de um momento para outro. O Brasil, infelizmente, tem mais perdido do que ganho. O embaixador Rubens Recupero, com muita propriedade, mostra, que estamos sofrendo pressões de cima e debaixo como um processo de "pinçamento" exercido por dois tipos de países.

    De um lado, estão os que investiram pesadamente em educação nas décadas de 60 e 70, por exemplo, Coréia e Taiwan, credenciando-se para vender produtos de alto conteúdo tecnológico (eletrônicos, automóveis, tornos e outras máquinas).

    De outro, estão os países que dispõem de mão-de-obra mais barata do que a nossa, por exemplo, Índia e Paquistão, credenciando-se para vender produtos sobre os quais, durante muito tempo, o Brasil teve vantagens comparativas (aços, têxteis, calcados e confecções).

    Ou seja, estamos sofrendo uma dupla pressão. No momento, sobra para o Brasil vender produtos agrícolas que dependem de grandes áreas (soja, açúcar, laranja) e alguns mínimos. Isso e muito pouco para quem precisa gerar quase dois milhões de novos empregos todos os anos.

    Ademais, países que se dizem liberais dedicam-se cada vez mais à tarefa de formar blocos de proteção. Temos de ficar atentos ao falso liberalismo. Até hoje não me conformo em termos ficado de fora do Nafta -North American Free Trade Agreement- que cobre 363 milhões de habitantes e seis trilhões de dólares de PIB.

    Os nossos diplomatas argumentam que não entramos por não sermos vizinhos de nenhum dos seus três integrantes Canadá, Estados Unidos e México. Ora, isso não é explicação; é mera justificativa de quem perdeu o bonde. Afinal, temos a maior população e o maior PIB da América Latina. Mantemos muita complementaridade econômica e política com os países do norte. Sempre privilegiamos a livre iniciativa.

    O Brasil seria um bom parceiro para o Nafta. Mas, em lugar de conquistar uma posição legítima naquele acordo, a diplomacia brasileira preferiu manter nosso país como observador. Ou seja, daqui para frente, observaremos os Estados Unidos combinarem no México tecnologias avançadas com mão-de-obra barata e deslocar ainda mais o Brasil no comercio de autopeças, máquinas elétricas, vidro, couro, tecidos, sapatos e até mesmo frutas processadas e hortaliças.

    A passividade brasileira foi imperdoável. Da mesma maneira que a persistência de nossa pobreza educacional é inaceitável. Por outro lado, o sr. Menem da Argentina não foi visitar o presidente Clinton apenas para lhe desejar votos de boa saúde. Abramos os olhos!!

    O Brasil precisa levar mais a sério que acontece no resto do mundo - que demanda muita agressividade e agilidade de ação. Os diplomatas brasileiros detém o merecido conceito de profissionais cultos e bem preparados. Falta, agora, ajustar essas qualidades a uma situação de guerra - a guerra comercial.

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