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Publicado na Folha de São Paulo,14/11/99
O quebra-cabeça social
Ninguém tem dúvida de que o Brasil passa por grave crise social. O medo tomou conta da população. A insegurança é generalizada. O crime, a droga, o armamento, a bandidagem e a corrupção ameaçam dominar a sociedade brasileira. É muito fácil atribuir-se a causa de tudo isso à pobreza, desemprego, má distribuição de renda e inércia do governo. Mas essas não são as únicas causas. Todas elas têm a sua parcela de responsabilidade, sem dúvida. Pobreza é sofrimento. Desemprego é desesperança. Má distribuição é revoltante. E a inércia do governo deteriora a economia. A crise social tem seus próprios desdobramentos. Os brasileiros parecem estar perdendo algumas das suas mais preciosas características. Já fomos um povo mais solidário. Fomos também uma gente alegre e otimista. Isso está ficando para trás. O salve-se quem puder substitui a solidariedade. A tristeza entra no lugar da alegria. O pessimismo conspira contra uma secular animação. Em tudo isso há exceções, é claro. Entre os mais pobres, vejo que a solidariedade continua quase intacta. É impressionante a ajuda que eles dão a si mesmos. Bem diferente do que ocorre nos demais segmentos da sociedade. Em geral, os que têm condições de ajudar, mais criticam do que ajudam. É irônico. Uma boa parcela das pessoas educadas é a que mais espera do governo. O corporativismo dominou seu coração. Reclama o tempo todo. Acha que seus problemas deveriam estar resolvidos só porque paga impostos. No meu entender, essas mudanças são profundas. Ocorrem também em outros países. E formam um quadro de contradições. A globalização avança, enquanto a solidariedade retrai. A responsabilidade pública aumenta, enquanto as receitas das instituições diminuem. As fusões e aquisições se ampliam, enquanto a vida de cada um se torna mais e mais individualista. Confesso não vislumbrar uma solução de curto prazo para esse quebra-cabeça. Essa é a questão: Como manter um mínimo de saúde social numa sociedade em que as instituições básicas estão sem recursos e em que cada ser humano procura cuidar apenas de si? Gostaria muito de ter a resolução para esse enigma. Não tenho. Leio nas pesquisas que o mundo precisa de novas instituições. Vejo que os próprios pesquisadores buscam construir mecanismos novos que garantam a proteção que era feita pelos mecanismos antigos. Nos dois casos, porém, tudo está por ser definido. Provavelmente, o equacionamento desse complicado problema surgirá aos poucos. Nessa trajetória teremos de ir respondendo a questões cruciais. Quanto acreditamos neste País? Estamos em dia com nossas obrigações fiscais? Temos ajudado, dentro das nossas possibilidades, os que precisam da nossa ajuda? Sinto que ainda é pouco. Muito pouco. Mas é bem mais do que simplesmente pagar impostos, reclamar do governo e criticar o individualismo. |