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Publicado na Folha de São Paulo, 21/06/98
Agricultura e emprego
Brasil possui cerca de 25% da sua força de trabalho na agricultura enquanto que os países da Europa têm apenas 3% e os Estados Unidos 2%. A entrada de novas tecnologias no setor agropecuário e a modernização dos métodos de produção, armazenamento e comércio contribuem para reduzir a mão-de-obra rural de forma acentuada. Os dados das Pesquisas por Amostragem Domiciliar (PNADs) revelam que isso já está acontecendo. A agricultura brasileira expele cerca de um milhão de trabalhadores por ano que, sem alternativa, se dirigem às pequenas, médias e grandes cidades à procura de emprego urbano. Com a ocorrência da seca, esse deslocamento se acentuou de forma expressiva em 1998, tendo contribuído fortemente na elevação das taxas de desemprego das capitais do Nordeste. Será que devemos encarar esse deslocamento como uma fatalidade, ou podemos atenuar a saída de trabalhadores da agricultura, com uma conseqüente melhoria da produção agropecuária e alívio dos problemas urbanos? O Brasil tem tudo para perseguir a segunda alternativa. A imensidão do nosso território, a abundância de sol e água na maioria das regiões, e a crescente demanda mundial por alimentos dão ao Brasil uma certa folga para utilizar o campo como absorvedor de mão-de-obra por muitos anos. É bom lembrar que só a China, que possui 20% da população do mundo e apenas 7% de área agricultável, precisará importar, anualmente, cerca de 200 milhões de toneladas de alimentos, à partir do ano 2000. Nesse sentido, o plano da safra agrícola 98/99, lançado esta semana pelo Governo Federal, com a alocação de R$ 11 bilhões de crédito rural a uma taxa de juros anuais de 8,75% ao ano para os grandes produtores e 5,75% para os pequenos e médios, constitui um passo importante para aumentar a produção agrícola e reduzir o desemprego urbano. Levando-se em conta as estimativas de inflação, que giram em torno de 4%, os juros reais para o setor, em 1998, ficarão entre 4,75% e 1,75%, respectivamente - o que é bastante razoável vis-a-viss os escorchantes 20% que são cobrados para se descontar uma duplicata na cidade. É claro que o desemprego não se resolve com medidas isoladas mas, uma iniciativa como essa, terá impactos de grande monta na atenuação do problema. O mesmo decorrerá da intensificação do investimentos no setor da infra-estrutura, em especial, na construção de moradias cujo déficit ultrapassa a casa dos 10 milhões. Num País que tem quase tudo a ser construído, não há porque encarar o desemprego como uma fatalidade histórica. É claro que a situação atual é crítica, mas ela tem tudo para ser revertida dentro de pouco tempo. |