• ARTIGOS - Administração Pública

    Publicado na Folha de São Paulo,12/09/99

    Curiosidades...
    Antônio Ermírio de Moraes

    A irreverência da Joaninha vem desde o nosso tempo de escola. Ela sempre se destacou pela precisão ao observar e inteligência ao criticar. Mas nunca a vi tão ferina como nos últimos tempos.

    Depois de sair de um spa, onde perdeu 10 quilos, e sentindo-se lépida e lúcida, ela veio tomar um café comigo. Disse não estar entendendo porque já despontam tantos candidatos para os cargos públicos no exato momento em que os governos anunciam estar com as finanças quebradas e arruinadas.

    Procurei dizer a ela que ainda tem muita gente de bem neste País, e que se dispõe a fazer sacrifícios pessoais para endireitar o que está aí.

    A Joaninha não aceitou o argumento, indagando, de volta, que tipo de sacrifício fizeram os vereadores da Câmara Municipal de São Paulo que passaram todo o seu mandato assaltando camelôs, fiscais, feirantes e até trombadinhas.

    Ponderei que, graças à democracia, todos nós ficamos sabendo desses desmandos, estando em nossas mãos, separar o joio do trigo, ao que ela retrucou:

    E daí? É só São Paulo? Será que os vereadores dos demais 5.500 municípios do Brasil são todos santos? E os seus prefeitos? Afinal, por quê, gente que quebrou o Brasil, vem agora querer disputar a Prefeitura de São Paulo, que está abarrotada de dívidas criadas por cidadãos desta paróquia?

    Você subestima o número de brasileiros de alto espírito cívico, e despojados de interesses pessoais, ponderei. Temos que dar um crédito aos políticos. Muitos deles já anunciaram suas boas intenções de acabar com a pobreza.

    Infelizmente, Antonio, são exatamente esses que passaram a vida se elegendo à custa dos pobres. Nesse meio há de tudo. Há gente de bem, sem dúvida. Mas há uma variada categoria de assaltantes. Há os que se notabilizaram por assaltar fiscais. Há os que se especializaram em agentes funerários. E há até mesmos os que vivem dos deficientes físicos. O que eu estou perguntando é muito simples: por que há tanta gente querendo gerenciar essas massas falidas que parecem doentes desenganados?

    Como a conversa não progredia, só me restou sugerir à Joaninha que ela mesma viesse a se candidatar para contar com o meu voto pois, não sou homem de votar em branco.

    Nessa hora, ela se queimou. Saiu pisando duro. Achou que zombei das suas críticas. Pior: achou que a comparei com um mero voto em branco.

    Dei-lhe um longo telefonema, justificando a minha boa intenção, e a enorme fé que nutro pela democracia do Brasil, com todos os seus problemas.

    Ela não bateu o telefone, porque educação é que não lhe falta – afinal foi professora por mais de 40 anos. Mas, fez o pior. Disse jamais ter suspeitado que os anos de vida que acumulei tenham servido apenas para cultivar uma colossal ingenuidade...

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